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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Mikhaïl L. Khazine «Putin, Lavrov: não haverá mais recuos».

Mikhaïl Khazine, combina as suas competências económicas e geopolíticas para analisar uma série de factos muito interessantes em matéria de geopolítica que se desenvolveram nos últimos dias. Num artigo posto online do 9 de Fevereiro no site (em lingua russa) World Crisis.

Em primeiro lugar, arranjo nesta série de eventos a visita inesperada de Merkel e Hollande, seguindo a visita de Lavrov durante a Conferencia sobre Segurança, e finalmente a declaração de Serguei Karaganov. Tudo isto merece ser analisado e começo pela declaração de Karaganov na medida em que ultimamente, suas declarações públicas são raras.
Fervoroso adepto do Ocidente, se absteve de toda a tomada de posição intelectual radical e tentou nos últimos anos não atrair a atenção. Razão pela qual sua declaração é de uma certa importância para ser examinada. Ele se exprimiu da seguinte maneira: «Nós queremos que nossos parceiros e vizinhos compreendam que o jogo que eles jogam desde à 20 anos acabou. Nós traçamos o perímetro dos nossos interesses geopolíticos e lutaremos por esta zona de tal forma que poucos o imaginam». Na verdade, o contexto desta afirmação, e a escolha da pessoa que a emitiu significa inequivocamente que Karaganov nada mais faz que comunicar uma informação para aqueles que hoje são chamados de «nossos parceiros».

Lembro aqui a minha análise da intervenção de Putin na sessão do Clube Valdai, durante o qual ele, ao que parece, enviou um ultimato aos Estados Unidos: se eles não pararem sua política imperialista, a Rússia será obrigada a pôr fim a uma colaboração que terá perdido seu significado e adoptar uma política mais dura. A julgar pelos acontecimentos, esse momento chegou.

Sobre um ponto de vista teórico, a atitude de Putin não parece lá muito razoável. A situação económica do país é quase catastrófica e a catástrofe é organizada por um grupo de altos-funcionários pró-americanos, que até agora têm dirigido a economia da Rússia. Temos todas as razões para acreditar que eles vão continuar esse trabalho (e por que não?) tendo como resultado o fecho das ultimas empresas de construção mecânica do pais, o PIB vai cair, as reservas cambiais diminuirá. O nível de vida da população também diminuiu, e continuará a diminuir.

A Rússia tem poucos aliados. Os Estados Unidos dedicaram muita energia para isso, e o declaram abertamente. As esperanças de cooperação com a China se revelaram bastante ilusórias (facto que os especialistas tinham avisado o poder, mas este se fez surdo), os preços dos produtos petrolíferos (e nossas receitas) diminuem, na Ucrânia, uma guerra em grande escala se anuncia gradualmente. Além disso, e neste caso é o mais desagradável, falta-nos uma «imagem de vitória», nesta guerra. Sem tal imagem, não conseguiremos, e parece estranho ter um discurso positivo. E é precisamente a ausência desta imagem que prova não haver nenhum «plano secreto de Putin, para a vitória». Apenas é questão, de temporárias temporárias, tácticas, ás acções do Ocidente. Por outro lado, já é muito bom não assinar uma capitulação imediata, como era costume entre 1990 e 2000.

Aqueles que desejarem tomar consciência da obstrução manifestada a Lavrov em Munique. Porque repentinamente uma tal obstrução? Se nós somos supostos, como é hábito, perder, então por que veicular todo esse ódio? E além disso, formulada de forma tão propagandista. Era previsivel que estas pessoas soltassem a cólera e que isso não foi um cenário acordado de avanço. Lavrov expressou coisas desagradáveis para o Ocidente, mas coisas já conhecidas à muito tempo e além disso, coisas lógicas. Isso parecia uma pequena resposta bem elaborada, mas então porquê a obstrução? Qual era o sentido ? Demonstrar que Lavrov seria persona-non-grata ? Ele, o Ministro dos Negócios Estrangeiros ? Uma pessoa dependente ? Que delírio ?

Uma questão se põe. Vou tentar responder. Esta resposta é que a situação económica dos Estados Unidos não é mais favorável do que a da Rússia, talvez bem pior (em todos os casos do ponto de vista psicológico).

É precisamente sob esta perspectiva que a sabotagem dos acordos de Minsk, pelo regime de Kiev é compreensível: os Estados Unidos compreenderam que têm pouco tempo e decidiram forçar a solução da questão do Donbass. Se ocorrer uma recessão, ser-lhes à extremamente difícil apoiar Kiev. E sem apoio, a Ucrânia entrará em colapso muito rapidamente (a UE também não dará dinheiro), coisa que não convém ao Ocidente. Em conformidade com o costume de que a Rússia acabará por ceder, os Estados Unidos lançaram a última ofensiva.

Tenho tendência a considerar que as intervenções de Lavrov e Putin (na assembleia dos sindicatos) demonstraram claramente que não haverá nenhum recuo. Isso significa que os Estados-Unidos vão ter de se bater seriamente... Que nas condições caracterizadas pela crise que se anuncia pode vir a ser muito perigoso. E cair no momento onde o mundo vai ver que a crise começou no seguimento das acções da Rússia. E sua autoridade crescerá consideravelmente. Mas de todas as maneiras, quem vai compreender ? Nas condições actuais, os Estados-Unidos precisam disso ?


Como conclusão geral de tudo isto (isto é puramente uma previsão especulativa, com base num sentimento pessoal que sobre factos), uma luta está ocorrendo não entre um pais forte e um país fraco, ou entre um país forte e um país que está a recuperar, mas entre dois países muito fracos. Claro, um deles é formalmente muito mais forte do que o outro, mas a quantidade de tarefas um deles se encarregou é substancialmente maior. E de maneira geral, tanto de uma parte como de outra não há practicamente mais recursos para uma tal confrontação.

FONTE   Tradução: Gang da Ervilha

Será muito interessante ver o desenvolvimento dos acontecimentos depois dos acordos de Minsk, ontem. Os Estados-Unidos continuam a manter seus colaboradores enviados para enquadrar Kiev na guerra contra o Donbass. Deduz-se assim que Kiev aproveitará, como antes o fez, para reorganizar suas tropas e repartir para mais uma (derrota!). Portanto tudo leva a crer que os últimos acordos não vão solucionar absolutamente nada. E pelos vistos a Rússia mais uma vez vai ter de pôr mãos à obra e dar mais uma palmadinha a Kiev e ao Tio Sam... que aparentemente não aprenderam a lição. É que apesar das sanções económicas contra os interesses russos, principalmente a baixa de preço do petróleo,e os constantes ataques ao rublo, que também lesaram enormemente a economia americana e europeia, a Rússia conseguiu resistir, mesmo tendo ficado enfraquecida no plano económico. Ora, talvez seja de esperar que os Estados-Unidos mudem de táctica. Porque soberbos como eles são, de certeza absoluta que vão tentar mais uma vez um golpe através de seus lacaios de Kiev e Bruxelas. Os EUA, meteram-se numa aventura muito perigosa, tentar algo contra a Rússia não é bem a mesma coisa que ter tentado algo contra o Iraque de Saddam Hussein... isto atendendo aos rumores de um possível fornecimento massivo de armas ás tropas ucranianas.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Mikhaïl L. Khazine: o PIB vai cair em todo o mundo

Entrevista do 28 Janeiro de 2015 ao jornal Svobodnaia Pressa.

Khazine : Aqueles que não vêem a catástrofe a vir, não a podem impedir.

Os economistas prometem ás grandes potências choques mais terríveis do que o de 1929. Mas o essencial é : o que devemos esperar,nós ? Pois as trafulhices de Washington afectam a cada um de nós.

Durante o período que Obama dirigiu os EUA, a divida do pais subiu para 70%, para atingir a extraordinária quantidade de 18 triliões de dollars. O problema fundamental está nas colossais despesas em benefício de todas as guerras travadas pelos Estados Unidos na nossa parte do mundo. A parte leão da dívida nas contas do Estado americano situa-se nos programas sociais. O país gasta o seu dinheiro para “alimentar” a população afim de evitar qualquer terramoto social. Nos Estados-Unidos, há um terrível abismo entre as receitas e despesas das famílias. As pessoas gastam mais do que ganham. Vivem a crédito. E até agora tem existido um mecanismo permitindo às pessoas realizar despesas para além das sua possibilidades. Isso não punha qualquer problema. Em si mesmo, a divida não joga um role essencial. O que é essencial, é assegurar o serviço. O país que imprime a moeda de reserva mundial não tem problema em matéria de serviço da dívida. O seu problema é diferente. Isto é, dar às pessoas a oportunidade de trabalhar para ganhar o que eles vão dispensar. Mas se, em permanência, as pessoas gastam mais do que ganham, então o sistema económico entra em colapso. Com efeito, em 2008 começou a desmoronar o sistema que fornecia aos cidadãos uma renda adicional, e em 2014, esse sistema deixou de funcionar completamente.


Em termos simples, isso significa que o Estado imprime dinheiro e distribui-o aos cidadãos através do sistema bancário, sob a forma de créditos, ou ajudas monetárias diversas tendo as pessoas uma oportunidade de obter algum dinheiro extra para gastar. E é no contexto de um excesso de demanda que tem sobrevivido a economia americana. Hoje, esta opção desapareceu. A única via é a diminuição das despesas. Os cidadãos dos Estados Unidos devem reduzir as suas despesas. Eles devem trabalhar muito mais e gastar menos. Se os cidadãos reduzem suas despesas, isso significa que eles deixam de pagar, de transferir o dinheiro em troca de bens e serviços dentro dos Estados Unidos. Isso implica uma queda do PIB dos Estados-Unidos... A questão fundamental é saber onde se situa o ponto de equilíbrio entre as receitas e despesas das famílias, é tudo. Segundo as nossas estimativas, o equilíbrio se situa sob o actual volume de gastos, avaliado em 7,5 triliões de dollars. Isso equivale a uma queda do PIB dos Estados Unidos, a um pouco mais de 50%.

No resto do mundo, vai haver uma queda semelhante, provavelmente de reduzida extensão. A estimativa de queda do PIB é de 55-60% para os Estados Unidos, cerca de 50% na Europa e cerca de 35% no resto do mundo.

Estamos às portas de um período muito interessante. É claro, os Estados recusam absolutamente falar e discutir sobre este assunto tabou. Tudo é feito como se aqueles que não vêm o desastre a chegar devessem ser poupados. No entanto, informalmente, se fala muito mais. Nós viveremos grandes dificuldades. E é impossível prever os eventos específicos, mas o cenário já é visível.



Fonte                                                  Tradução: Gang da Ervilha